O luto em tempos de confinamento social

O luto em tempos de confinamento social

Estamos todos no mesmo mar. Navegamos em barcos diferentes e todos tentamos chegar a bom porto….

Às vezes, no meio da tempestade, enquanto tentamos manter a rota, ficamos doentes…. Às vezes, apenas porque estamos no convés à hora errada…

Apoiamo-nos uns aos outros como podemos. Vivemos a nossa viagem de forma tão pessoal e única que pode até parecer absurda aos olhos dos outros. Mas é a nossa viagem…

Às vezes precisamos pedir ajuda…

….para cuidar daqueles que amamos e de quem não podemos cuidar…e a vida exige que continuemos a nossa viagem. O nosso coração desespera por boas notícias… sabemos que é tão importante um abraço que não podemos dar, uma festa leve no rosto que não podemos fazer, um toque na mão que não podemos partilhar… mas o barco precisa continuar. Ficarmos parados no oceano é ficar à deriva, e rapidamente naufragamos. E o naufrágio implica que um herói, ou tantos de uma única vez, porão em risco as suas vidas para nos resgatarem….

E o barco continua!

E o nosso coração fica a sangrar.

Talvez não voltemos a tocar, tão cedo, os nossos amores.

E, às vezes, porque os nossos heróis não são como nos contos de fadas, ligam-nos a dizer que os nossos amores ficarão, para sempre no mar….

A tempestade é injusta, gritamos nós! Não acreditamos, choramos à espera que, no dia seguinte, pela manhã ao acordar, tudo tivesse sido um sonho mau. Mas o sonho mau transformou-se em pesadelo, na noite mais escura que já vivemos….

Agora queremos apenas dizer adeus, beijar o corpo frio que, em tempos, nos aqueceu o coração. Mas não podemos. Nem sequer acenar ao longe com um lenço branco para mostrar a pureza do nosso amor… nem colocar uma lágrima na caixa que leva, para as profundezas da terra, quem nos levou a voar até ao céu…

Mas sabemos que aqueles que partem, deixam apenas de viver connosco para passarem a viver em nós. E, na sua última viagem, nunca estarão sozinhos!

Então, se não puder despedir-se ou estar fisicamente presente no funeral, continue presente…

Dentro do seu desconforto, escolha um lugar confortável. Pode optar por ficar sozinho ou com alguém com quem se sinta seguro.

Se souber a hora do funeral, viva esse momento na sua imaginação. Se não souber, ou caso já tenha ocorrido, eleja uma hora para viver esse tempo.

Imagine-se na capela, na igreja, no templo. Imagine as pessoas que estarão consigo a prestarem, também, a última homenagem. A urna aberta, ou fechada, e as flores. Os candelabros e todos os símbolos que fazem sentido para si.

Imagine as cerimónias fúnebres, os sons dos sinos, a música de fundo, os passos das pessoas que entram e saem. O cheiro das velas que ardem e o perfume das flores. A temperatura da sala, a luminosidade do dia e a luz na sala onde se vela o corpo. Demore o seu tempo…. Depois imagine que tem um tempo só para si, para se poder despedir antes de levarem a urna. Continue a acompanhar as diligências e o cortejo fúnebre. No cemitério detenha-se um pouco nos últimos momentos. Pare o relógio enquanto precisar.

Em seguida, imagine-se a regressar a casa sabendo que acompanhou o seu ente querido até à sua última morada física.

Dê-se a si algumas palavras de ânimo, aquilo que precisa ouvir depois de sepultar quem tanto ama.

É normal ficar triste, com raiva, desorientado…. É normal que se sinta culpado ou que culpe alguém… é normal que não tenha apetite ou que tenha em demasia. É normal que tenha muito sono ou que não consiga dormir. É normal que se sinta exactamente como se sente. Lembre-se, você é único e sente de forma única este período… que se transformará…. Porque a seguir ao inverno vem sempre a primavera.

Se a primavera tardar em chegar ou se o Inverno for demasiado doloroso, peça ajuda a um terapeuta do luto. Afinal estamos todos no mesmo mar…

Fernanda Afonso

terapia do luto, psicoterapia, hipnose clinica

https://www.facebook.com/DraFernandaAfonso/

Valores e a sua fragilidade

Valores – uma reflexão

Hoje, quase por acaso, tropecei em Nietzsche. Isto depois de ter sonhado com a mudança e com a fragilidade dos nossos valores.

Acordei ainda com memórias frescas do sonho que me levou por terras desconhecidas e com uma amálgama de realidade e ficção.

Não vou maçar-vos com o meu sonho mas foi inquietante! Algumas das cenas favoritas da minha infância fizeram-me uma visita. Todos temos cenas favoritas de quando éramos pequeninos, não e? Lembramo-nos dos nossos sorrisos, dos sapatinhos de verniz, daquela roupa tão especial mesmo da cor da moda… do conforto dos abraços e dos miminhos, do cheiro do bolo da avó, do sabor do arroz de galo da mãe…

Cresci numa aldeia e, no Inverno, brincava com a água das valas que vinha lá de cima dos pinhais. Era água fria e barrenta porque trazia consigo pedaços de terra que apanhava no caminho. Com bugalhos e pedacinhos de cana, construía moinhos que moíam os grãos para cozer o pão nas histórias que eram só minhas.

E foram algumas dessas memórias que coloriram o meu sonho. Em que andava descalça porque era bom para fortalecer os pés e hoje é mau porque nos constipamos, porque nos sujamos ou porque é deselegante…

E esta menina trigueira de olhos castanhos falava com um personagem claramente fruto de outros filmes. Comiam “caganotes”, assim chamava aos pequenos bolbos das azedas, flores amarelas que floriam no inverno, e voavam como se fossem pássaros a espiar outros tempos. Como se fossem histórias saídas da caneta de algum louco… tantas coisas estranhas e diferentes. Tantas coisas vistas de outros ângulos que acabam por parecer aberrantes.

Lembro-me duma rapariga num cais à espera do barco, que se transforma em canoa e desce o rio. Lá em baixo, dois homens digladiavam-se até à morte tentando, cada um defender com a vida, a sua honra.

As cenas sucediam-se numa velocidade estonteante como se estivessem a acontecer todas ao mesmo tempo.

E eu acordei com aquela sensação estranha de ter participado noutros contos…

De facto, assim dizia Nietzsche “Todas as coisas «boas» foram noutro tempo más; todo o pecado original veio a ser virtude original.” Aquilo que hoje é deixa de ser amanhã. O que parece ser certo hoje, parece ser errado amanhã. O que é valorizável hoje é desprezível amanhã.

Afinal temos muito pouco, ou quase nada, de constante na vida. Até os valores mudam. Antes era necessário lavar a honra com a morte do opositor, hoje chamamos-lhe crime. Antes havia purgatório, hoje o Papa diz não haver. Antes, a gordura era formosura, hoje é uma patologia.

Antes havia escravatura, hoje todos nos unimos para a combater.

Antes, trabalhar era uma desonra, hoje é um direito…

Acreditar em modelos de pensamento imutáveis parece não ser o caminho. Aliás é o caminho para a divisão, para a discórdia, para as lágrimas de culpa, de medo, de raiva… Acreditar que possuímos a razão como se nos pertencesse por direito leva-nos ao sofrimento a nós e aos outros.

Perceber que, se nada mudasse, não havia vida como a conhecemos, é o primeiro passo para podermos relaxar e perceber que, afinal, tudo está como pode estar.

Voar como um pássaro, apenas observando lá de cima, do alto, ajuda-nos a ter uma nova perspectiva de vida.

E talvez possamos agora olhar para nós e para os outros sabendo que, como refere o pensador “Todas as coisas «boas» foram noutro tempo más e todo o pecado original veio a ser virtude original “ . (Friedrich Nietzsche, in “A Genealogia da Moral”)

Fernanda Afonso