Valores e a sua fragilidade

Valores – uma reflexão

Hoje, quase por acaso, tropecei em Nietzsche. Isto depois de ter sonhado com a mudança e com a fragilidade dos nossos valores.

Acordei ainda com memórias frescas do sonho que me levou por terras desconhecidas e com uma amálgama de realidade e ficção.

Não vou maçar-vos com o meu sonho mas foi inquietante! Algumas das cenas favoritas da minha infância fizeram-me uma visita. Todos temos cenas favoritas de quando éramos pequeninos, não e? Lembramo-nos dos nossos sorrisos, dos sapatinhos de verniz, daquela roupa tão especial mesmo da cor da moda… do conforto dos abraços e dos miminhos, do cheiro do bolo da avó, do sabor do arroz de galo da mãe…

Cresci numa aldeia e, no Inverno, brincava com a água das valas que vinha lá de cima dos pinhais. Era água fria e barrenta porque trazia consigo pedaços de terra que apanhava no caminho. Com bugalhos e pedacinhos de cana, construía moinhos que moíam os grãos para cozer o pão nas histórias que eram só minhas.

E foram algumas dessas memórias que coloriram o meu sonho. Em que andava descalça porque era bom para fortalecer os pés e hoje é mau porque nos constipamos, porque nos sujamos ou porque é deselegante…

E esta menina trigueira de olhos castanhos falava com um personagem claramente fruto de outros filmes. Comiam “caganotes”, assim chamava aos pequenos bolbos das azedas, flores amarelas que floriam no inverno, e voavam como se fossem pássaros a espiar outros tempos. Como se fossem histórias saídas da caneta de algum louco… tantas coisas estranhas e diferentes. Tantas coisas vistas de outros ângulos que acabam por parecer aberrantes.

Lembro-me duma rapariga num cais à espera do barco, que se transforma em canoa e desce o rio. Lá em baixo, dois homens digladiavam-se até à morte tentando, cada um defender com a vida, a sua honra.

As cenas sucediam-se numa velocidade estonteante como se estivessem a acontecer todas ao mesmo tempo.

E eu acordei com aquela sensação estranha de ter participado noutros contos…

De facto, assim dizia Nietzsche “Todas as coisas «boas» foram noutro tempo más; todo o pecado original veio a ser virtude original.” Aquilo que hoje é deixa de ser amanhã. O que parece ser certo hoje, parece ser errado amanhã. O que é valorizável hoje é desprezível amanhã.

Afinal temos muito pouco, ou quase nada, de constante na vida. Até os valores mudam. Antes era necessário lavar a honra com a morte do opositor, hoje chamamos-lhe crime. Antes havia purgatório, hoje o Papa diz não haver. Antes, a gordura era formosura, hoje é uma patologia.

Antes havia escravatura, hoje todos nos unimos para a combater.

Antes, trabalhar era uma desonra, hoje é um direito…

Acreditar em modelos de pensamento imutáveis parece não ser o caminho. Aliás é o caminho para a divisão, para a discórdia, para as lágrimas de culpa, de medo, de raiva… Acreditar que possuímos a razão como se nos pertencesse por direito leva-nos ao sofrimento a nós e aos outros.

Perceber que, se nada mudasse, não havia vida como a conhecemos, é o primeiro passo para podermos relaxar e perceber que, afinal, tudo está como pode estar.

Voar como um pássaro, apenas observando lá de cima, do alto, ajuda-nos a ter uma nova perspectiva de vida.

E talvez possamos agora olhar para nós e para os outros sabendo que, como refere o pensador “Todas as coisas «boas» foram noutro tempo más e todo o pecado original veio a ser virtude original “ . (Friedrich Nietzsche, in “A Genealogia da Moral”)

Fernanda Afonso